
Na beira da praia
A areia da praia é essa linha que separa 2 mundos distintos apesar de complementares e interdependentes. De um lado o mundo da terra firme, do concreto e palpável, do conhecido e controlável, onde os pés assentam firmemente e a mente se sente segura e confortável. Do outro , o universo fluido e instável da água, que escorre pelas mãos, cujo fluxo interminável e incontrolável desequilibra as certezas e tira os pés do chão para flutuarem pelo desconhecido e inconstante.
O ser humano tem dentro de si essas duas dimensões aparentemente contraditórias, a mente racional habituada à análise concreta e à dedução matemática, e o inconsciente desconhecido e ilógico, esse mar imenso que seduz e ao mesmo tempo assusta. Para manter esse equilíbrio, o ser incarnado caminha na areia molhada da praia onde as 2 dimensões se encontram, esse fio da espada onde o descuido e a desatenção podem fazer com que o homem seja surpreendido pelas ondas do mar que o arrastam para o afogamento num meio onde não sobrevive se não estiver devidamente equipado.
Mas aos poucos e com cuidado pode-se aprender a nadar, começando pela beira da água, onde as ondas são baixas. O aprendiz pode ir se acostumando com a fluidez dos sentimentos, pode ir aprendendo a manter o equilibrio mesmo quando as ondas das emoções batem nas pernas.
Com o tempo, ele passa a se aventurar em flutuar calmamente quando o mar está tranquilo, em momentos de meditação e oração. Com a prática, ele dá as primeiras braçadas para tentar se afastar um pouco mais da segurança da margem e se deixar levar pela maravilhosa experiência de nadar sem medo de se afogar nas próprias revelações interiores.
Já mais adiantado e seguro, o nadador passa a mergulhar e a explorar as profundezas do oceano interior. Ele descobre animais e formas desconhecidas, alguns belos e harmoniosos, outros perigosos e sinistros, mas nada o perturba. Ele se depara com civilizações perdidas no tempo e cobertas com as águas do esquecimento que pode trazer à luz da análise consciente em terra firme. Elas explicam o passado e os caminhos percorridos até o presente.
E um dia, já velho e experiente nadador e mergulhador, ele se deixa levar definitivamente pois já não há separação entre o mar e a terra, tudo faz parte do todo em expansão.
Mas toda esta aventura começa na beira da praia, com o primeiro passo em direção ao mar.
Caboclo Ogum Beira Mar